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#colunistas | Coluna de Diversidade – Por: Carla Baker

#colunistas | Coluna de Diversidade – Por: Carla Baker

Gênero e sexualidade no período pré colonial

Sabemos que o debate sobre homossexualidade é bastante recente na História, mas você se espantaria em saber que o termo “homossexual” surge na mesma época que a noção de “heterossexualidade”. O que nos mostra que as relações estabelecidas hoje como heteronormativas nem sempre foram a norma e a noção de gênero e sexualidade era muito diversa em diferentes partes do mundo em diferentes épocas.

“O sexo não tem história”, escreve o teórico queer David Halperin, professor da Universidade de Michigan, “porque é baseado no funcionamento do corpo”. A sexualidade, por outro lado, tem uma história, precisamente porque é uma “construção cultural”.

Essas tipificações da sexualidade favoreciam o controle e domesticação dos corpos das pessoas, para a construção de uma moralidade em oposição a estilos de vida degenerados, criando-se assim uma norma onde uma é correta e subjuga as demais desviantes e assim se cria um mecanismo de dominação cultural.

Um estudo feito por antropólogos brasileiros, apontam que a diversidade sexual no Brasil, apesar de parecer uma pauta atual, remonta desde antes da época colonial.

Eles analisaram dezenas de registros das diferentes formas de sexualidade e de relacionamentos entre os índios brasileiros no período colonial, e concluiram que foi a homofobia que desembarcou na América com os colonizadores europeus e não a homossexualidade.

Os pesquisadores partiram de relatos e crônicas históricas dos exploradores europeus. Encontraram um grande número de acusações de “perversão sexual”, “sodomia” e “pederastia”. “São histórias de como a Cruz, a Coroa e o Estado tentaram (e tentam) controlar os corpos indígenas, e de como eles resistem e persistem”, define Barbara Arisi.

A pesquisa investigou principalmente como se deu a colonização sexual e corporal dessas comunidades – e como sua diversidade vem sendo apagada e reestruturada desde a chegada dos europeus no continente americano até os dias de hoje. Em diferentes comunidades encontramos diversas noções de gênero e sexualidade que fazem parte da cultura de um povo, sua visão de mundo, muitas vezes ligado crença da manifestação da alma do sujeito, como é o caso de Xica do Manicongo, personagem histórica que hoje é reivindicadas pelos movimentos negros e pelas travestis que tiveram sua história apagada da história oficial ensinada nas escolas.

Xica Manicongo, reconhecida hoje como a primeira travesti da história do Brasil, Xica foi sequestrada do Congo, escravizada e vendida a um sapateiro em Salvador (BA), em meados do século 16. A exemplo de reis e rainhas de sua terra natal, caminhava vestindo um pano sobre a cabeça e não aceitava ordens, bem como dentro da sua cultura possuía alma dos dois sexos portanto flutuava entre as noções europeias de homem e mulher. Isso lhe rendeu uma acusação de crime de sodomia à Inquisição da Igreja Católica e, para sobreviver, deixou de se vestir como realmente era e aderiu às vestimentas denominadas masculinas pelos europeus. Por anos, sua história ficou escondida nos livros pelo nome de batismo, Francisco. No século 20, a memória de Xica foi ressignificada e abraçada por movimentos sociais; seu nome foi honrado por Majorie Marchi, presidente da ASTRA-Rio (Associação de Travestis e Transexuais do Rio de Janeiro), a ASTRA criou em 2010 o Troféu Xica Manicongo, reconhecendo iniciativas voltadas aos direitos humanos e promoção da cidadania de travestis e transexuais.

Essa reflexão histórica se apresenta como a raíz dos problemas enfrentados até hoje pela população preta e travesti que segue marginalizada e hostilizada em diversos ambientes e nos mostra o quanto devemos continuar lutando para que esse ódio de gênero desapareça de uma vez por todas.

@Carla Baker

Redação: Colunistas / Carla Baker